ADESG-AL debate 25 anos de mudanças econômicas e sociais em Alagoas

Alagoas tornou-se mais urbanizada, escolarizada e menos pobre ao longo das últimas décadas, mas ainda enfrenta obstáculos para transformar seus avanços sociais em desenvolvimento econômico duradouro. Essa foi a principal reflexão apresentada pelo professor Dr. Cícero Péricles aos estagiários da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra em Alagoas (ADESG-AL), durante palestra realizada na noite de 15 de outubro, em Maceió. Com uma análise do período de 2000 a 2025, o economista demonstrou que a expectativa de vida da população passou de 63,8 anos em 2000 para 74,3 anos em 2024, enquanto a escolarização de crianças entre 6 e 14 anos alcançou 99,4%. Ao mesmo tempo, destacou a persistência da pobreza, da informalidade no mercado de trabalho e da dependência econômica de outros estados, defendendo uma nova etapa de desenvolvimento baseada na ampliação da produção local e na geração de empregos qualificados.

Alagoas avançou em educação, saúde e renda, mas desigualdades permanecem

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Na palestra “Mudanças na Economia e na Sociedade em Alagoas: 2000 a 2025”, o professor apresentou uma leitura histórica da transformação alagoana, começando por um diagnóstico estadual produzido em 1987, que descrevia pobreza, concentração de renda e de terras, urbanização acelerada, infraestrutura social precária e informalidade. A exposição relacionou esse ponto de partida à crise administrativa e financeira dos anos 1990 e à posterior ampliação das políticas públicas associadas ao marco constitucional de 1988. Para os estagiários da ADESG-AL, o percurso mostrou como mudanças econômicas, decisões administrativas, programas sociais e transformações demográficas se interligam e ajudam a compreender os desafios de planejamento e desenvolvimento regional. O pesquisador ressaltou que não se pode avaliar a trajetória de Alagoas apenas por indicadores recentes, sem considerar o patamar de carências do qual o estado partiu.

Um dos processos descritos foi a intensa urbanização. Segundo a série exibida, a população urbana alagoana cresceu de 428.278 pessoas em 1960 para 1.918.963 em 2000. O professor associou parte desse movimento à saída de moradores do campo, à reestruturação das relações de trabalho rural e às dificuldades de absorção de famílias em cidades que não dispunham de habitação, serviços públicos e oportunidades de emprego em quantidade suficiente. A população mais concentrada no meio urbano passou a exigir uma estrutura mais ampla de escolas, unidades de saúde, saneamento, transporte e assistência. O resultado dessa trajetória, na avaliação apresentada, ainda se manifesta em problemas habitacionais e de infraestrutura, apesar das melhorias verificadas nas décadas seguintes.

A evolução social foi ilustrada por indicadores expressivos dos slides. A esperança de vida em Alagoas passou de 59,7 anos em 1990 para 74,3 em 2024, enquanto a taxa de mortalidade infantil caiu de 102,2 para 13,9 óbitos por mil nascidos vivos no mesmo intervalo. A escolarização das crianças de 6 a 14 anos subiu de 89% em 2000 para 99,4% em 2024, embora a expansão de matrículas não represente, sozinha, garantia de qualidade de ensino. Na atenção primária de saúde, o material registra evolução de 22,99% de cobertura em 1998 para 78,13% em 2025, com 1.075 equipes de Saúde da Família e 6.477 agentes comunitários. Os números evidenciam avanços importantes, mas o professor frisou que as diferenças em relação às médias regionais continuam sendo um parâmetro indispensável de avaliação.

As transferências sociais e os benefícios previdenciários ocuparam parte central da exposição. Nos recortes apresentados para 2025, Alagoas possuía 534.393 famílias atendidas pelo Bolsa Família em junho, 483.452 benefícios previdenciários em dezembro e 139.972 beneficiários do Benefício de Prestação Continuada (BPC) em setembro. O pagamento mensal do Bolsa Família naquele mês de referência alcançava R$ 360,3 milhões, com valor médio de R$ 674,61, segundo o quadro utilizado na palestra. O economista argumentou que a circulação desses recursos ampliou a capacidade de consumo e sustentou atividades comerciais em bairros e municípios de baixa renda. Ressaltou, contudo, que os indicadores correspondem a unidades e programas distintos, não permitindo somar automaticamente todas as quantidades para obter um número de pessoas únicas beneficiadas.

Comércio, pequenas empresas e agropecuária mudaram a economia alagoana

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A análise da atividade econômica ressaltou a mudança do peso relativo de setores tradicionais e a expansão do comércio e dos serviços urbanos. Conforme os dados apresentados, o conjunto de micro e pequenas empresas e microempreendedores individuais (MEIs) chegou a 217.385 registros em 2025, no levantamento exposto pelo professor. Outro quadro apontou 184.118 unidades empresariais no comércio e nos serviços, segundo recorte estatístico próprio, que não deve ser somado ao anterior. O palestrante atribuiu parte da expansão da economia popular à ampliação da renda de famílias antes excluídas do consumo regular, à formalização de empreendimentos e à difusão de meios de pagamento e serviços bancários. Esse movimento favoreceu pequenos estabelecimentos, fornecedores, prestadores de serviços e novas redes de distribuição que passaram a atender municípios antes menos integrados às estruturas comerciais.

Um destaque foi o crescimento das empresas distribuidoras e atacadistas. A série dos slides registra 39 empresas em 2016 e 109 em 2025, enquanto a receita declarada do setor passou de R$ 2,694 bilhões para R$ 9,742 bilhões nesse intervalo. O professor explicou que essas companhias exercem uma função logística relevante ao adquirir mercadorias de grandes centros produtores e abastecer mercados, padarias, restaurantes e lojas em Alagoas e em áreas vizinhas. Também apontou a bancarização como parte da transformação, citando pagamentos previdenciários e assistenciais, microcrédito, cartões, contas digitais e Pix. Na sua interpretação, esses instrumentos tornaram o consumo mais acessível e ampliaram a circulação de recursos, embora o fortalecimento do comércio não signifique que a produção dos bens vendidos tenha ocorrido dentro do estado.

A palestra também abordou o avanço do turismo. A apresentação registra que o número de meios de hospedagem passou de 107 em 2008 para 529 em 2021, enquanto os leitos cresceram de 13.849 para 38.542. O professor relacionou essa transformação ao aumento do acesso de diferentes faixas de renda às viagens, ao crescimento da rede de serviços e à ampliação da presença de turistas em Maceió e outras localidades. Ao mesmo tempo, alertou para as condições ambientais e de infraestrutura necessárias à continuidade da expansão. A valorização das praias e das paisagens naturais, em sua avaliação, precisa ser acompanhada de saneamento, preservação ambiental e capacidade de oferecer serviços compatíveis com as expectativas dos visitantes, sob o risco de comprometer o próprio atrativo econômico do setor.

No campo, a exposição descreveu uma reconfiguração produtiva. A área de cana-de-açúcar indicada na apresentação caiu de 461.912 hectares em 2000 para 295.300 em 2025, enquanto a produção de cana passou de aproximadamente 25,2 milhões para 17,6 milhões de toneladas. O professor associou a retração do setor sucroalcooleiro a questões estruturais, dificuldades de mecanização em determinadas regiões, redução de investimentos e mudança de competitividade diante de outras áreas produtoras. Não afirmou que a cultura desapareceria, mas que ela já não explicava, sozinha, a dinâmica econômica alagoana. Em contraste, o rebanho bovino cresceu de 787.750 cabeças em 2000 para 1.388.515 em 2024, segundo os slides, com expansão no Sertão, Agreste e Leste/Zona da Mata. Foram mencionados avanços em manejo, alimentação, genética e produção leiteira.

A agricultura familiar apareceu como outra dimensão importante da economia rural. Em dados relativos a 2017, o professor mostrou sua contribuição para diferentes produtos, incluindo 89% do arroz, 87% do feijão, 79% da mandioca e 63% do milho nos respectivos recortes exibidos. Também destacou atividades como pecuária de pequenos animais, leite e fruticultura. O argumento foi que a diversificação da produção agrícola e industrial pode ampliar o abastecimento interno e abrir novas oportunidades nos mercados regionais. A apresentação associou essa necessidade ao recuo relativo de culturas tradicionais, como o fumo, e ao potencial de municípios do interior para desenvolver atividades produtivas além de seus antigos setores dominantes.

Por que o crescimento do comércio não resolve sozinho a dependência econômica?

O professor chamou atenção para a diferença entre distribuir mercadorias e produzi-las dentro do território alagoano. Seus slides mostram uma série de saldos negativos no comércio interestadual, com valor de R$ 30.661 milhões em 2025. Na interpretação do palestrante, parte relevante da renda gerada ou transferida para Alagoas financia a compra de alimentos, vestuário, móveis e outros produtos fabricados em estados vizinhos. O comércio é importante para gerar ocupações e movimentar a economia, mas o crescimento sustentado, segundo sua tese, exigirá desenvolver também a capacidade local de produzir bens que hoje precisam ser comprados fora.

Pobreza, informalidade e saída de trabalhadores desafiam o desenvolvimento de Alagoas

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Apesar da expansão dos serviços e dos indicadores sociais, o mercado de trabalho foi apresentado como uma das maiores fragilidades estaduais. A tabela referente ao último trimestre de 2025 aponta 1,222 milhão de pessoas ocupadas, cerca de 106 mil desocupadas e 660 mil trabalhadores informais, com rendimento médio de R$ 2.557 no recorte exposto. O professor discutiu a sazonalidade de atividades como turismo, construção civil e agroindústria canavieira, que influenciam contratações e desligamentos ao longo do ano, além dos desafios enfrentados pelos trabalhadores com baixa escolaridade ou formação técnica insuficiente. Ele defendeu que a melhoria do emprego não pode ser avaliada apenas por resultados mensais favoráveis, pois oscilações sazonais não equivalem necessariamente à criação permanente de ocupações de melhor qualidade.

Outro dado utilizado foi a migração. Segundo a série apresentada, em 2022 havia 950.676 pessoas nascidas em Alagoas vivendo em outras unidades da Federação, ante 611.264 em 1991. O professor interpretou esse fenômeno como sinal das dificuldades históricas de inserção profissional e renda, observando que a migração envolve tanto trabalhadores de menor escolaridade quanto profissionais qualificados que procuram oportunidades em centros econômicos maiores. O número é um estoque de residentes fora do estado em uma data de referência, não uma contagem de pessoas que saíram de Alagoas em um único ano. A preocupação central foi a necessidade de desenvolver um mercado de trabalho capaz de oferecer perspectivas suficientes para que mais pessoas tenham condições de permanecer e construir suas carreiras no próprio estado.

Na comparação regional, a exposição apontou problemas persistentes de saneamento, qualificação profissional, produtividade e renda. Um dos quadros apresentados indicava, para 2022, 34,08% de cobertura do indicador de esgotamento sanitário utilizado, abaixo dos 43,06% atribuídos ao Nordeste. Para o professor, também é necessário diferenciar acesso à escola de qualidade da aprendizagem e crescimento do consumo de fortalecimento da produção. Sua avaliação foi que a expansão de políticas sociais representou avanço relevante na proteção das famílias, mas encontra limites como motor exclusivo do desenvolvimento econômico, exigindo novas iniciativas voltadas à diversificação de atividades e à geração de trabalho mais produtivo.

Impacto para Alagoas e para o planejamento estratégico

Ao apresentar o cenário aos estagiários da ADESG-AL, o professor relacionou o conhecimento da realidade estadual à necessidade de planejamento de longo prazo. A formação promovida pela associação oferece espaço para discutir como infraestrutura, recursos humanos, economia e condições sociais influenciam o desenvolvimento regional e nacional. A abordagem da palestra não se limitou ao diagnóstico: incluiu recomendações de universalizar e melhorar serviços de educação, saúde e assistência, ampliar saneamento e habitação, fortalecer a formação profissional e incentivar setores produtivos capazes de abastecer Alagoas, disputar mercados vizinhos e alcançar novos compradores. São propostas defendidas pelo palestrante, não medidas governamentais anunciadas na atividade.

A conclusão da exposição foi que os ganhos sociais precisam ser preservados, mas Alagoas depende de uma nova etapa de crescimento produtivo. O professor argumentou que a expansão da indústria, da agricultura de alimentos e de outras atividades capazes de gerar renda pode contribuir para reduzir a dependência de mercadorias externas, qualificar postos de trabalho e ampliar oportunidades. Ao encerrar, recorreu a reflexões de Celso Furtado e Amartya Sen presentes nos últimos slides para diferenciar crescimento econômico de desenvolvimento humano: o objetivo não seria apenas produzir mais, mas permitir que melhores condições de vida acompanhem o aumento da riqueza. Essa foi a mensagem deixada aos estagiários da ADESG-AL após a análise de 25 anos de transformações: o estado mudou profundamente, porém o próximo ciclo exigirá que avanços sociais e fortalecimento da base produtiva caminhem juntos.

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